ensaio para uma loucura – parte 18
Posted on December 12th, 2007 by pedrovskiPosted in textos soltos | No Comments »
agora sei onde te vi! eu vi-te numa fuga, era fuga das amarras de tuas pernas e corrias em dedos de mão de pescoço ao vento, peito transfigurado, sexualidade reprimida e grito mudo de ar surdo.
o chão embrulhava-se num caminho-de-ferro abandonado e diversas carruagens empenadas pintavam o horizonte. o chão misturava a terra castanha seca de verão com pedras de cantos geométricos escuros. na tua fuga quase cheirava chuva sobre o imenso sol. teu cabelo esticava-se sobre suas próprias pontas e os teus lábios salientes encrostavam-se ao cantos da boca a pedir em socorro saliva. chamei-te em berro que soltou-se como um murmúrio sussurrante sem força, não olhaste, nem ouviste mas sabias bem melhor que eu tudo o que se desenhava sobre aquele berro seco. enfim, esboçaste um gesto de tapar o nariz numa tentativa frustrada de não sentir o cheiro do meu sentimento, eu estava possuído pela tortura de querer passar este meu raciocínio que me visita diariamente, tenho que te passar este desejo, esta minha corrida ao meu ego. e quanto mais me apagas o mais me sinto aqui onde estou, e quanto mais apagas mais sinto o perdão a correr as unhas dos meus pés. os meus ossos estalam na tua ignorante fuga. eu sei, tu sabes que perdeste tudo o que era meu e agora procuras a redenção fora de minhas veias. no meu orgulho de virar os olhos e nunca passar tudo o que vejo esqueci-me de vigiar a tua fuga ardente. o tempo girou e quando o meu corpo surgiu em movimento, no que julgava ser tua posição, já lá não estavas. então fechei os olhos em direcção à linha-férrea onde as carruagens já ardiam no topo do hemisfério sul da visão. o teu ardente ser transformou-se em fogo e a tua fuga cinzas escuras… o teu espírito lançava-se no céu, assim morrias, e eu descansava sobre a minha tortura de nunca conhecer o frieza do teu corpo e o gelo do teu peito enrugado de tão velho em tão novo sonho.
