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contos do desejo h-4

Posted on May 30th, 2008 by pedrovski
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era no quarto, estava deitada numa prateleira do topo com um saco de plástico transparente sobre a boca que dançava ao som do respirar. as unhas estavam muito para lá da ponta dos dedos, levantou-se subitamente, sempre de saco à boca e a respiração chorava ao som estridente do plástico. caiam-lhe lágrimas sem sal sobre a face seca, desidratada, os braços esticados, as mãos sobre a prateleira e o diafragma comprimia-se até lhe aparecem as costelas muito para lá dos limites da pele.
naquele momento em que me encontrava quase em desvario de medo e solidão exasperante ela soltou um gemido bem alto e disse num tom ríspido – estou sem ti, vivo sem ti e estas lágrimas não as sinto. quero estar sem ti neste alvoroço do teu peito e não serei eu a servi-te de guia. – poderia naquele momento esquecer o horror daquele corpo decadente e mostrar que o amor escreve-se sem limites físicos mas o meu corpo estava preso às inúmeras obsessões compulsivas de um peito redondo e de pele doce. ele, o corpo, estava contraído as delícias do sexo sem dor, e do amor sem alma.



pecado

Posted on May 28th, 2008 by pedrovski
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segrega-me por pecado delgado. pecado gentil de questionar tudo. sonega-me desse pecado de ser. reitera “deus” esta vontade de tudo fazer sonho. porque o que sinto, o que amo, o que insisto viver não se pauta por indiferenças. e se o mundo cai, o mundo inspira o medo, o mundo mata a sede de viver antes então a morte.



silêncio

Posted on May 28th, 2008 by pedrovski
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o silêncio é o respirar de certa liberdade. descontrolado, eufórico silêncio. o silêncio doi na alma, o silêncio destrói a alma, o silêncio silencia a alma.
tu sabes, silêncio, a chama que libertas sobre o corpo. tu sabes… o coração em cinzas, o peito que sonega a dor.
silêncio. respiras minha liberdade, porque mostras a verdade. silêncio clarifica-nos a solidão. nada mais que um silêncio para mostrar sentimento. a indiferença reza-se no silêncio, a mentira foge do silêncio, a dor fica sempre, sempre no silêncio. por isso silencio-me agora…



sem título

Posted on May 26th, 2008 by pedrovski
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pergunta-me, frente a frente, de olhar fixo no teu mar se o que sinto faz levantar as ondas…



inanimados

Posted on May 23rd, 2008 by pedrovski
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as drogas escondem-se temporariamente em retratos inanimados. estou capaz de vasculhar a terra por ti amor seco. a memória, pesada, é a maior tormenta da sobriedade. a sobriedade esconde-se em tormenta por pedir a ti um rasgo dessa pimenta deslavada. ardem-me os olhos de ti, porque o amor, como é, desdobra-se sem racionalidades. ele existe somente em corações muito distintos que olham para lá das formas. já esqueci…



queima do pensamento

Posted on May 12th, 2008 by pedrovski
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engravatados
esgravatados
engomados pelo prazer sado-maso
ahh! estes homens são os maiores
estudantes da cultura
à obediência
e da fábrica de lazeres absurdos
que transforma mentes
em minhocas
e saltam-lhes os olhos
das órbitas
para sempre ficarem
cegos, surdos e mudos

porque estes homens
e mulheres
jovens ultra-conservadores
perpetuadores da teia
social anti-contestária
lançaram foguetes
julgam-se os maiores
por serem, absolutamente
e unicamente nada.



ética doce e podre

Posted on May 12th, 2008 by pedrovski
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muitas vezes a sinceridade da movimento que se cria alternativo ao status quo perde-se em ninharias tempestuosas e desejos imensos de acumulação de capitais. o imenso regozijo obtido ao sabor das notas faz assim perder a verdadeira razão existencial das coisas. os sonhos, ao cruzarem-se com o desejo de acumulação de riquezas supérfluas por mentes fracas subverte o movimento criado à partida transmutando as ideias em moralidades absurdas de obediência ao trabalho e aos costumes impostos por uma ética transviada e subvertida pelas normas sociais.



contos do desejo h3

Posted on May 12th, 2008 by pedrovski
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ela, é fantasma
anda com passos secos
ela, foge.
o caminho é húmido
ela tenta justificar
quem é…

ela cai
e eu vejo-a afundar
ela foge
e eu vejo-a longe

e tento ficar distante
porque ela,
respira-me o andar.
ela afoga-se
e eu observo-a
na agua
de rosto indiferente
de morte indolor
dum coração sem amor.



extasiado

Posted on May 10th, 2008 by pedrovski
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pediu-me, uma ponta de cigarro para nunca mais fumar. o olhar extasiado duma noite de deleite. gritou-me, estava eu, no cimo da bicicleta com o suor a mergulhar o escuro do porto. a boca abriu-se e os dentes cheios de folgas sorriam pateticamente a heroína. respondi-lhe delicadamente enquanto o vento atirava a respiração ofegante para trás – não fumo! sorri, mas seus olhos estavam pará lá dos meus, a cabeça parecia deslocada do corpo, o sorriso quase um gesto permanente, gélido e estupidamente feliz. atravessou-se na estrada em movimento desconexo, as costas balançavam para trás e as pernas andavam em esforço a tentar acompanhar o atrofio da mente.
nesta minha viagem até casa aprendi, mais uma vez, o gesto do mundo que não o meu. o mundo que se intitula o real. a felicidade estúpida contraste com o vazio depressivo. a heroína consome-se cegamente em ecrãs de televisão, a nicotina veste-se de rotina, a cocaína ouve-se em discotecas da moda, e o maior êxtase cheira-se na obediência ao sistema.



rédeas jamais

Posted on May 5th, 2008 by pedrovski
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tens braços curtos
não abraçam até o fim das costas,

tens olhos cegos
não olham ao inicio dos meus lábios,

tens, talvez, orelhas moucas
e passa-te a mente somente pelo corpo,

na minha esperança, jaz o meu oceano precipitado. chove lá fora, e visito todos os dias este imaginário que sentes o meu desejo e lês as minhas cartas, os meus devaneios. lê-me porque em nada diminuis a intensidade deste coração. ouve-me agora porque um dia a vida parte. ouve-me hoje ainda porque preciso de falar para alguém que me seja semelhante. quem sabe alguém que não cobra ajuda. alguém que espreita o que faço sem que daí sinta-se fraca e perdida de mim.
bebe este vinho de mim, adocicado, verdadeiro, sem que os vícios me impregnam de tolices sentimentais. quem sou… sou porque senti que de nada servem outros caprichos que não a vontade imensa de sentir o prazer da vida.



toque de miséria

Posted on May 4th, 2008 by pedrovski
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dentro de mim um frágil toque de miséria. ouvem-se dentro do meu vazio choro perdidos de sonhos inalcançáveis. ouvem-se dentro do meu peito, dentro do meu coração conspirações sem sentido, certezas inabaláveis, retratos dormentes. para mim chega-me um mundo que não quero, para mim um castigo pela ausência deste pensamento no âmago do meu ente. digo-te hoje que guardei de ti meu mundo. a única resposta possível a este enigma que esgota-se no tempo é um lento adeus.