fui a caminho da praia na tentativa de escapar a uma desavença. queria sentir o mar. cheguei, parei a minha bicicleta e deixei-me dormir junto a uma pedra sobre um sol agradável. acordei, e quis ligar a alguém que gosto, mas estava chateado por achar que essa pessoa leva o egoísmo ao absurdo.
fui até junto do mar, até a agua tocar nos pés. não atendeu, irritado atirei o telemóvel pelo ar para trás das costas, enquanto ele ainda chamava alguém. depois dum bocado fui lá apanhá-lo e estava em voice mail… desliguei…
olhei para o mar e acalmei-me. incrível como é difícil quebrar assim do nada um laço de amizade, mesmo que o queiras, quando para o outro, pouco parece interessar, alias uma das únicas boas características do egoísmo extremo é a independência em certos momentos dos outros que “gostas”(usas).
quis estar bem, inspirei fundo e deixei-me ouvir o som do mar. já estava a curtir o vento, quando de repente ouço uma voz – oh menino!! precisamos ajuda!! – 2 mulheres e um homem junto ao mar, as mulheres carregavam 2 bacias grandes azuis. e a mulher de braços ao alto, e continuava a bradar – precisamos de água do mar para lavar peixe – embora não fosse uma razão muito vegetariana lá fui até o sitio, a mulher queixava-se que tinha asma e não podia molhar-se no mar. de calções verdes tropa, entrei pelo mar dentro, não estava nada frio, quis apanhar a água transparente então deixei-me molhar bem e apanhei agua. fiz 2 vezes até encher bem as bacias. depois, precisaram de ajuda a carregar. o homem e uma das mulheres seguiram com uma e eu segui com a outra, com a outra mulher, a que me falou de inicio. ambas as mulheres eram fortes, quase o dobro do meu tamanho. infelizmente o tamanho não era proporcional à força e a mulher mal conseguia carregar uma bacia comigo que pesava menos de 10 quilos. o homem e a mulher na minha frente andavam cada 2 metros e descansavam! já tavamos quase no topo e a mulher quase sem fôlego diz-me que apanharam peixe em espinho mas tava cheio de areia, seguidamente riu-se descontroladamente… repetia – o peixe de espinho é cheio de areia! – não me consegui rir, mas sorri de forma simpática. lá deixei a mulher já perto do carro onde supostamente se encontrava o cadáver do peixe (não o quis ver). desci novamente, precisava de secar os calções, ia para a casa da horta trabalhar não podia aparecer de calções molhados. no entanto era tarde, segui na minha bicicleta de volta desde gaia até ao porto. pelo caminho uma menina corria atrás duma bola de futebol que por instinto ao chegar perto da minha bicicleta rodei o volante e fiz-lhe um passe direitinho, não o conseguiria fazer novamente, ela riu-se, nem consegui-lhe sorrir estava com algum impulso, um mal da bicicleta é que parece que as vezes perdes alguns momentos interessantes. depois cruzei-me com outra rapariga, esta já adulta, parecia gira, mas outro mal da bicicleta é que não tens tempo para apreciar quem passa por ti a não ser que olhes fixamente espécie animal esfomeado e eu gosto de ser discreto. mas reparei que tinha uns óculos escuros, uma coisa que nunca consegui usar. será que quando ela trava a bicicleta não tem medo que os óculos saltem para a frente? continuei o meu caminho, sempre a passar por pescadores de rio, que raio de peixe pescam eles ali naquele rio inundo? já depois da ponte D.Luís passei pelo túnel e à direita, já dentro do túnel um gato preto estava morto. se há coisas que me provocam tempestades interiores são animais mortos na estrada, enaltecem o meu ódio aos carros duma forma quase descontrolada, apetece-me naquele momento incendiá-los a todos, um por um… entretanto pensei em escrever este relato, antes mesmo de chegar à casa da horta. mais pelo surreal das mulheres a quererem lavar peixe e pedirem ajuda, e como em dois momentos diferentes vi a morte de animais provocados duma maneira, se calhar, desnecessária…
